8. SEMINÁRIO: TEMAS EM DISCUSSÃO + ENTREGA FINAL
A avaliação da disciplina consiste num artigo acadêmico de tema livre, relacionado às aulas e à bibliografia de referência. No seminário da aula 8, cada estudante apresenta o tema de sua escolha, uma estrutura preliminar do desenvolvimento intencionado e a bibliografia que pretende utilizar. Quanto mais desenvolvido estiver esse material, mais útil será a discussão. Seguem abaixo algumas recomendações gerais para a escolha do tema e a elaboração do texto final, a ser enviado em pdf para o email kapp.silke@gmail.com até data a definir a cada semestre (para avaliação com comentários por escrito) ou uma semana depois (para avaliação sem comentários).
ESCOLHA DO TEMA
Objetivo do artigo é discutir, com profundidade e precisão crítica, um tema relacionado à produção do espaço arquitetônico. Trata-se de um ensaio teórico, isto é, uma investigação do trabalho de outros autores cujos argumentos, teses e opiniões são analisados, comparados entre si e discutidos à luz do que você mesmo pensa. As fontes do trabalho de outros autores são textos, palestras, aulas ou entrevistas que, direta ou indiretamente, abordem o tema escolhido. O que você mesmo pensa decorre do seu raciocínio e, também, da experiência direta ou de percepções objetivas e subjetivas. Todo esse 'arquivo particular' pode ser utilizado, desde que seja refletido criticamente, de modo que não se transforme apenas numa versão mais sofisticada do senso comum.
Escolha um assunto pelo qual você se interessa de fato e delimite-o de modo claro e relativamente restrito. Temas burocraticamente escolhidos resultam em trabalhos enfadonhos. Temas abrangentes demais resultam em chavões mal alinhavados, convicções mal fundamentadas e citações mal processadas. Exemplos:
"O conceito de arquitetura" seria um tema impossível.
"O conceito de arquitetura em Le Corbusier" seria uma tese de doutorado (não muito interessante).
"O conceito de arquitetura moderna em Por uma arquitetura de Le Corbusier" seria uma dissertação de mestrado (também não tão interessante).
"As 'casas em série' propostas por Le Corbusier em Por uma arquitetura" seria um tema viável para um artigo, pois pode-se fazer uma discussão disso em dez páginas.
"As 'casas em série' de Le Corbusier: engajamento social ou expediente publicitário?" também seria viável e talvez fosse mais instigante do que o exemplo anterior, porque examina um aspecto específico a partir do qual muitos outros podem ser discutidos.
Defina um recorte histórico e geográfico, mesmo que o artigo pretendido não seja a análise de determinado lugar ou época. Não comece em Adão e Eva, nem tome como válido para todo o mundo o que se refere a um determinado território. As tentativas de fazer grandes panoramas em poucas páginas – de qualquer assunto, seja ele abrangente ou restrito – tornam-se facilmente caricaturais, com generalizações descabidas e saltos entre épocas esquematicamente justapostas (na Antiguidade era assim, na Idade Média era assado, na Idade Moderna...). Isso obviamente não significa que não se possa fazer uso completar de informações trazidas de outros tempos e lugares.
Escolha um tema abordado na bibliografia de referência da disciplina. Você pode usar outras fontes, mas não exclusiva nem prioritariamente. E certifique-se da disponibilidade das fontes. Se tudo depender de um livro que, justo no momento em que se elabora o texto, não pode ser consultado, ou de um levantamento de campo que não está pronto, é preferível escolher outro tema.
Como se trata de uma discussão com outros autores, é recomendável delinear o campo de interesse, realizar um bom volume de leituras a partir desse delineamento preliminar e, paulatinamente, definir o foco do que se quer fazer. Isso leva algum tempo. Portanto, comece logo.
ESTUDO DO TEMA
O estudo equivale ao desenvolvimento de uma posição, uma hipótese ou um argumento próprio sobre o assunto. Em geral, começa-se por uma posição que, ao longo de leituras, reflexões, conversas, aulas etc. pode ser fortalecida, modificada ou transformada radicalmente, até que se tenha suficiente clareza para expô-la e defendê-la. Na redação do trabalho, já é preciso ter clareza sobre as posições e os argumentos dos autores utilizados e sobre a própria posição. Procure entender para quem e contra o quê um autor expõe seus argumentos e raciocínios. Eles são coerentes e convincentes? Jogam nova luz sobre fenômenos conhecidos? Fazem repensar pressupostos tacitamente aceitos? Foram contrapostos ou refutados? Como e por quem?
Tudo isso implica não apenas compreender mas também questionar. Uma das várias formas de aprofundar e precisar a reflexão é fazer mentalmente o que Sócrates fazia conversando. Exemplo:
Parte-se de uma assertiva considerada verdadeira e aparentemente inocente, um lugar comum: O ensino de arquitetura estimula a criatividade.
Examinam-se as premissas da assertiva, incluindo as definições usadas. “Ensino de arquitetura” significa ensino formal, acadêmico, institucionalizado de projeto, com o detalhe de que o termo “ensino” põe o professor como protagonista. (Na área da educação, fala-se em ensino-aprendizagem para dissolver esse protagonismo automatizado.) “Criatividade” poderia significar a capacidade de não apenas seguir regras e conteúdos dados, mas ter ideias que ultrapassam o que está dado e até rompem as regras.
Então, remonta-se a assertiva com as premissas ou definições: Os professores de projeto dos cursos universitários de arquitetura estimulam o desenvolvimento de ideias para além dos conteúdos que eles mesmos oferecem.
Nesse ponto geralmente já aparecem contradições, fragilidades ou novas perguntas. Será que os professores de projeto estimulam mesmo os estudantes a ultrapassá-los? Ou é mais provável que haja uma regra implícita para a aparência de criatividade que, assim como as outras regras, precisa ser seguida pelos estudantes para que sejam bem avaliados?
Se a contradição for evidente, a assertiva já pode ser considerada falsa e isso conclui uma primeira etapa do raciocínio. Mas se a assertiva inicial não parece contraditória, apenas meio duvidosa, pode-se tentar refomular com mais precisão: O ensino de arquitetura estimula a produção de projetos que parecem criativos aos olhos dos não arquitetos.
Outra tática interessante é procurar exceções. Há casos em que o ensino de arquitetura interdita ou tolhe a criatividade? Certamente que sim. Prova disso é que os projetos dos estudantes de determinada época são muito semelhantes entre si. Se fossem todos criativos, não cairiam em resultados tão parecidos. Aí, também se tenta reformular até chegar em uma nova assertiva mais consistente.
Durante as leituras e reflexões, tenha o cuidado de assinalar de quem é um argumento que você anota, para não plagiar involutariamente nem adotar assertivas alheias inocentemente. Esse último caso vale sobretudo para autores citados por outros autores. Há alguns textos no campo arquitetônico que todos citam e ninguêm lê, como, por exemplo, "Ornamento e Delito" de Adolf Loos, quase que invariavelmente tomado por manifesto em favor das fachadas limpas. A surpresa, ao passar da quarta página do texto de Loos, é que ele argumenta contra o ornamento elaborado pelos arquitetos no papel e à revelia do trabalho manual do canteiro; ele quer atacar alguns coleguinhas da secessão vienense, mas não tem nada contra o ornamento decidido e elaborado pelo artesão ou artífice.
ESTRUTURA
O trabalho deve ter até 6.000 palavras (incluindo notas e referências bibliográficas). Sua formatação gráfica é livre, exceto pelos seguintes parâmetros: entrelinhas de no mínimo 1,5; nome do autor, título, disciplina, professor e data na primeira página; arquivo pdf. O texto pode ter um caráter mais ensaístico ou mais formal, conforme a preferência de cada um, mas recomenda-se que inclua os elementos abaixo.
Título
O título diz de que o trabalho trata. Algumas vezes a especificidade do tema acaba levando a títulos muito longos. Para amenizar isso ou para sugerir o tom do texto, pode-se recorrer a um título mais breve, seguido de um subtítulo de caráter mais explicativo.Resumo
O resumo é uma síntese de cerca de 300 palavras que indica o objetivo, os principais pontos do desenvolvimento e as conclusões mais importantes do trabalho. O resumo fornece a outros pesquisadores as informações necessárias para a seleção de leituras.Palavras-chave
Bibliotecas, revistas e outras instituições que veiculam textos acadêmicos solicitam palavras-chave para incluir o trabalho em índices de assunto. Indicam-se geralmente de três a seis palavras-chave. Elas podem ser termos simples ("empirismo") ou expressões compostas ("Movimento Moderno").Introdução
A introdução situa o leitor na perspectiva necessária à compreensão do restante do trabalho. Sugiro que não ocupe mais de 10% do texto. A introdução não se divide em subitens. É útil (mas não obrigatório) observar a sequência: apresentação do tema; delineamento do pano de fundo mais amplo no qual o estudo se insere, explicando por que tem relevância; limites do tema (o que se está deixando de fora); apresentação dos autores com os quais se discutirá ou que são relevantes para o assunto (se há um autor importante que não será utilizado no trabalho, cabe explicar brevemente por que sua perspectiva não tem interesse ou por que foi deixado de fora); apresentação dos objetivos ou posições defendidas; breve descrição do que será tratado nas seções seguintes. Mais uma dica: comece com uma frase simples e pouco pretenciosa. Quando se começa de modo bombástico, com uma frase de grande efeito, o leitor espera mais revelações sensacionais na sequência; é muito difícil sustentar isso ao longo do texto.Metodologia ou métodos (opcional)
Um ítem denominado "Métodos" seria uma descrição dos passos da investigação e dos materiais e procedimentos utilizados, que permite a outros pesquisadores repetir o que foi feito. Isso tem mais sentido para pesquisas empíricas do que para pesquisas teóricas. No nosso caso, só será pertinente se o trabalho incluir dados não optidos em outros textos, mas em pesquisas de campo, entrevistas, experimentos ou outros levantamentos realizados especialmente para esse fim. Ler a bibliografia pertinente não é um método, mas uma premissa de qualquer trabalho acadêmico. Já um ítem denominado "Metodologia" deve trazer não apenas a descrição do que foi feito, mas também uma explicação sobre a pertinência daquele método para o propósito visado; metodologia é o logos dos métodos. Observe que "metodologias", no plural, não faz o menor sentido.Desenvolvimento
O desenvolvimento contém o cerne do texto. Ele pode ser dividido em vários itens e subitens, expondo a discussão segundo um encadeamento lógico (e não cronológico, pois o artigo não é o diário de bordo dos estudos que foram realizados). Numa pesquisa empírica, o desenvolvimento compõe-se tradicionalmente da apresentação dos dados e resultados obtidos, de sua análise (o que significam no âmbito da pesquisa) e de sua discussão (o que significam em relação a outras pesquisas existentes, como alteram o conhecimento da área). Nas pesquisas teóricas, esse esquema costuma engessar a discussão inutilmente. Será mais interessante construí-lo de acordo com o argumento.Conclusão ou considerações finais
Pode trazer um brevíssimo resumo do que foi discutido, para depois sintetizar as respostas ou, enfim, as conclusões. Essa parte final não contém informações novas e tampouco guardam-se para ela os melhores argumentos. O mais importante é que pode conter especulações mais livres ou ideias interessantes para inspirar discussões futuras.Referências bibliográficas
Incluem-se nas referências bibliográficos somente as fontes de fato utilizadas no texto. Existem diversos manuais sobre como fazê-las corretamente.
ESCRITA
O texto deve ser claro, preciso, coerente e logicamente encadeado – a começar pela sintaxe (toda oração deve ter pelo menos sujeito e verbo). Evite expressões supérfluas (a noção contida na ideia de), chavões (o impacto da crise abalou os fundamentos), metáforas inúteis (a simetria escraviza a planta), divagações e coloquialismos (acho que a simetria detona a planta) e erros (à nivel de). A verbos que designam relações sem evidenciar sua natureza (vincular, ligar, atrelar, relacionar) prefiro verbos mais específicos (complementar, causar, integrar, opor, implicar, ser análogo a). Exemplos:
A arquitetura ligada ao mercado tem a ver com a lucratividade e com a LPOUS.
Associação vaga de ideias sem qualquer precisão e, ainda, com uma sigla que apenas os iniciados entendem.As soluções arquitetônicas preferidas pelos incorporadores imobiliários são aquelas que, dentro dos condicionantes da Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo, auferem os maiores lucros.
Aceitável, constatação relativamente neutra, o leitor não percebe de imediato a posição do autor; a expressão "incorporadores imobiliários" é mais precisa do que "mercado"; não há siglas misteriosas.As soluções arquitetônicas tipicamente adotadas pelos incorporadores imobiliários são determinadas pelo interesse privado de maximização de lucros e pelos limites que a legislação urbana impõe a esse interesse.
Aceitável, constatação mais incisiva do que a anterior; "legislação urbana" indica uma visão abrangente.As soluções arquitetônicas, os tipos, as técnicas de construção, os revestimentos, as opções volumétricas e de vedação e aberturas quase sempre usadas e repetidas à exaustão pelos magnatas capitalistas que regem nosso mercado imobiliário e vêm deformando e degradando as nossas cidades em monótonas selvas de pedra são o resultado cruel da dialética entre o interesse privado do lucro e a lei que deveria defender o interesse coletivo, mas na verdade apenas serve aos mesmos.
Empilhamento de informações supérfluas, tom panfletário, uso descabido do termo 'dialética', metáforas excessivas, sintaxe duvidosa, uso errôneo (e horroso) de 'mesmos' como substantivo, imprecisão e, apesar da grande quantidade de palavras, total falta de clareza.
Outro aspecto a ser cuidado na escrita é a distinção clara entre as diversas vozes, isto é, a voz do autor do trabalho e as vozes de autores referidos ou discutidos. O leitor deve conseguir ouví-las sem dificuldade. Além disso, ao usar uma ideia ou um argumento de outro autor, é imprescindível referí-lo, seja entre parênteses ou em nota de rodapé. Qualquer trecho de texto de outro autor é obrigatoriamente posto entre aspas ou, se ocupar mais de três linhas, destacado do corpo do texto sem aspas. Nos dois casos, segue-se a indicação correta da fonte. Paráfrase sem referência ou cópia literal sem aspas no corpo do texto (mesmo que com referência) são formas de plágio.
Uma última recomendação, diz respeito ao tempo verbal. O uso do tempo passado faz cair facilmente num tom de conto de fadas muito pouco frutífero para uma discussão de ideias. Em rigor, é óbvio que qualquer autor consultado escreveu antes do momento em que nós estamos escrevendo, seja mês passado ou século passado. Qual é, então, a razão para que alguns sejam referidos no presente (fulano afirma) e outros no passado (fulano afirmou ou fulano afirmava)? Um livro publicado em 1900 pertence ao passado ou ao presente? E um livro de 1980? E de 2000? Mais graves ainda são as inferências impensadas da história das ideias para fenômenos exteriores às ideias. Exemplos:
Engels afirmava que a propriedade privada da moradia não era vantajosa para os trabalhadores assalariados, porque reduzia a possibilidade de greves e migrações no mercado de trabalho.
Dá a entender que a propriedade privada da moradia não era vantajosa para os trabalhadores do século XIX, mas que depois passou a ser. Não fica claro onde termina o argumento de Engels e onde começa a história social.Engels afirmava que a propriedade privada da moradia não é vantajosa para os trabalhadores assalariados, porque reduz a possibilidade de greves e migrações no mercado de trabalho.
Melhor do que o exemplo anterior; indica que as estruturas a que Engels se refere ainda não se modificaram essencialmente. Mas também conota que o argumento é meio ultrapassado, do tipo minha vó dizia...Engels afirma que a propriedade privada da moradia não é vantajosa para os trabalhadores assalariados, porque reduz a possibilidade de greves e migrações no mercado de trabalho.
Põe o argumento na perspectiva de uma discussão atual, ainda pertinente. Ele pode ser acatado ou refutado, mas deve ser levado a sério. Obviamente, essa forma de escrever não dispensa esclarecimentos sobre a época e o contexto de Engels.Segundo Engels, a propriedade privada da moradia não seria vantajosa para os trabalhadores assalariados, por reduzir a possibilidade de greves e migrações no mercado de trabalho.
Pode-se usar o condicional para deixar claro que o argumento não será acatado sem mais. Mas é mais difícil usar esse tempo verbal de modo coerente.