O que é a interface de espacialidade

Para facilitar a concepção de espaços por pessoas sem treinamento específico, o MOM vem desenvolvendo a chamada Interface de Espacialidade. Trata-se de um jogo de componentes leves, modulares e encaixáveis, que pode ser montado e modificado pelo público-usuário continuamente e com grande facilidade. Tal interface possibilita que qualquer pessoa construa e experimente espaços em escala real, conforme suas preferências e necessidades como ilustrado pela maquete física e pelo modelo digital. Os espaços assim gerados podem: 1) ser transformados em dados digitais, tornando-se a base para um projeto técnico; 2) ser usados temporariamente para lazer ou abrigo emergencial; 3) servir de gabarito de obra em processos de autoconstrução; 4) auxiliar processos pedagógicos de compreensão e comunicação de idéias espaciais. A interface de espacialidade pode, ainda, ser usada autonomamente por qualquer pessoa ou grupo para fins não previstos quando de sua concepção.

Partimos do pressuposto de que participação, a partir de decisões e ações autônomas dos usuários, é indispensável para a produção bem sucedida de espaços domésticos e de equipamentos comunitários. A interface de espacialidade pretende servir de ponte entre o processo de produção formal dos espaços, com suas possibilidades técnicas e sociais, e o processo de produção informal de autoprodução, tão comum nas cidades latino-americanas. A interface é um instrumento de convivência: ela dá a cada indivíduo a oportunidade de enriquecer o meio ambiente de acordo com seu ponto de vista, em vez de lhe impor usos e significados predeterminados. Seja no âmbito da ocupação de terrenos urbanos, seja no da organização de espaços domésticos, qualquer pessoa ou grupo pode gerar, com autonomia e de modo compreensível a todos os envolvidos, concepções espaciais, que levarão (ou não) a construções permanentes com outros materiais. O processo ajuda a democratizar as decisões de projeto e tornar mais eficaz a discussão entre os usuários e o diálogo entre leigos e profissionais. A interface informa os usuários acerca de características do espaço não evidentes em desenhos, modelos digitais ou maquetes, tais como a escala, a profundidade (visual), o movimento e a relação com o próprio corpo. Isso faz com que a interface seja também um instrumento para compreensão das implicações da inserção dos espaços projetados em seus contextos concretos.

A interface de espacialidade pode ser usada em qualquer situação de projeto participativo, desde que os agentes se disponham à inversão do processo formal de projetação. Convencionalmente, esse processo consiste em: transpor (de modo sempre parcial) dados concretos para meios abstratos; elaborar as soluções em abstrato; retorná-las prontas à realidade no momento da construção. Dominam os agentes que têm conhecimento dos meios (como o desenho técnico, por exemplo). No processo proposto, o meio usado é auto-explicativo por ser concreto. A realidade não é um "ruído", mas o meio em que se ensaiam, alteram e revisam as soluções espaciais. Apenas depois de alcançadas essas soluções básicas, o conhecimento especializado – com as abstrações que lhe forem indispensáveis – entra no processo como uma forma de apoio.

Inicialmente a interface de espacialidade foi pensada com um repertório de peças constituído de: A) conectores tridimensionais de madeira; B) elementos estruturais de bambu (linhas duras), com dimensões nominais (entre eixos) de 60cm, 120cm, 180cm e 240cm; C) planos de vedação em tecidos de diferentes tamanhos e níveis de opacidade e elasticidade; D) planos rígidos em composite reciclado de embalagem tetrapack; E) contraventamentos e tirantes de cordoalha; F) pinos e ganchos metálicos para travamento.

Depois de experimentarmos algumas possibilidades de conectores (inter05, inter06, inter07) e constatarmos o grande esforço estrutural a que são submetidas estas peças no sistema montado, procuramos o departamento de estruturas da UFMG na busca de uma solução mais adequada. Foram confeccionados então os conectores de madeira laminada colada para garantir a resistência aos esforços. Já os elementos estruturais de bambu, que inicialmente foram escolhidos por ser o bambu um material renovável, não funcionaram no sistema montado. As peças de bambu são bastante irregulares quanto ao diâmetro e espessura de sua cavidade, o que inviabiliza a estabilidade dos encaixes com os conectores. Para substituir o bambu como peça estrutural testamos o sistema com tubos de papelão, que não funcionaram satisfatoriamente por não oferecerem rigidez suficiente com diâmetros relativamente pequenos. Optamos então pelo PVC para as peças estruturais, que permite fácil ajuste no diâmetro, por meio de esquentamento, para adequar-se aos conectores.

Um primeiro kit foi então montado e experimentado em diversas ocasiões com intuitos distintos: Projeto Lotes Vagos; Feira de Ciências do Instituto Libertas; Workshop com adolescentes no Aglomerado da Serra; Workshop com estudantes de arquitetura na UFMG; Aula de Plástica na Escola de Arquitetura da UFMG; Processo participativo de projeto de uma casa da árvore no Instituto Libertas; e Workshop com índios no curso de Licenciatura Indígena da FAE-UFMG. A interface de espacialidade continua em desenvolvimento visando agregar mais elementos tanto estruturais quanto de conexão e outros que porventura se fizerem necessários.

No caso de usar a interface para projetar espaços a serem de fato construídos, permite experimentar in loco características ambientais e espaciais do objeto a ser construído: inserção na paisagem, relações visuais e físicas com elementos naturais ou artificiais próximos, sol, luz, vento, vistas. Mediante a possibilidade de fazer tentativas, avaliações e correções dos novos objetos, responde-se melhor a especificidades e oportunidades de cada contexto particular.  Assim, reduz retrabalhos na construção ou reformas posteriores decorrentes da inadequação entre espaço projetado e realidade concreta. No caso de ser utilizada como apoio a atividades temporárias, reduz o custo de implantação dessas últimas e permite a participação dos diversos atores na produção do espaço devido a sua facilidade de montagem, que encoraja a produção coletiva. Nos dois casos, a interface pode ser desmontada sem dificuldade e os componentes reusados, complementados e repostos indefinidamente.